Translate

terça-feira, 21 de agosto de 2012

"Deus me livre de ser inteligente"

A criação deste blog é uma tentativa de retomar o exercício de um determinado tipo de escrita, deixada em segundo plano logo depois de eu ter entrado na universidade. Ou melhor, é um deslocamento que venho tentando realizar a algum tempo em relação àquele tipo de escrita acadêmica “positivista”, ou com aquele tipo de escrita influenciada por uma preocupação com a formalização da linguagem natural e criação de uma artificial que transcenda os limites da primeira. Não que esse tipo de escrita formal tenha pouco valor, mérito ou razão de ser, mas creio que certas relações que se estabelecem com esse tipo de escrita embrutecem o pensamento e embotam a sensibilidade.
É interessante como alguns homens e mulheres “doutos” e “cultos” limitam todo seu potencial criativo a um tipo de escrita praticada somente entre os muros do seu local de trabalho; como se deixam submeter e resumir à figura do “homem/mulher de carreira”, afastando-se do mundo comum. Interessante, também, como alguns aspirantes a “jovem cientista” se deixam reduzir à condição de “filhotes de orientador”.  E aqui não me refiro aos doutos da área de “ciências exatas”, mas das humanas de modo geral. Ao mesmo tempo em que podem possuir um profundo conhecimento da literatura de suas respectivas áreas, destilam preconceito em relação aquilo que menos fazem questão de conhecer e compreender com a mesma atenção e cuidado com que cumprem suas obrigações profissionais: a realidade que extrapola a realidade do seu gabinete. Essa parece ser a posição que alguns intelectuais se colocam: a de cumpridores de tarefas, de pequenos empresários que buscam atingir metas de produção e, assim, arrecadar mais receitas para a contínua reprodução dessa lógica.
A lógica que faz funcionar a cabeça de alguns educadores atualmente parece ter muito a ver com essa lógica empresarial. Pesquisar já não é “apenas” produzir conhecimento, mas investir em um pé-de-meia complementar a renda de professor. Tudo é investimento, de tudo se espera algum retorno financeiro (bolsas). Nessa lógica os estudantes e orientandos transformam-se em assistentes que precisam auxiliar o patrão a atingir as metas de produtividade da empresa ou do programa de pós-graduação. Assim, o mercado da pesquisa no Brasil é muito competitivo, pois na disputa por verbas para financiar o pé-de-meia dos professores e, por conseguinte, suas pesquisas, há uma linha tênue que separa o profissional do imoral. Desse modo, alguns professores não se incomodam nem um pouco em deixar o seu propalado profissionalismo de lado e partir para as práticas mais vis e baixas para destruir seus concorrentes e colegas de trabalho. Nesse sentido concordo que já não nos distanciamos tanto de um operário, pois se o trabalho do pensamento não segue exatamente a lógica produtivista da CAPES, ele é flexível o suficiente para ser capturado e submetido a um determinado modelo de produção intelectual. O trabalho realizado por alguns educadores, filósofos ou pesquisadores em geral poderia ser caracterizado como um trabalho de luto. Não seria a ineficiência das políticas públicas para a Educação, dos recursos e do gerenciamento desses recursos públicos apenas mais um sintoma dessa esterilidade e não “o” problema da educação?
O debate acerca da Educação brasileira geralmente gira em torno do mesmo tema: verba e financiamento. Ao fim e ao cabo é por isso que se faz greve. Esse tem sido o ponto nevrálgico desses debates. Resumir todo o trabalho do pensamento e toda prática educativa a um pragmatismo grosso que visa especialmente o aumento da (re)produção bibliográfica do saber já é sucatear a Educação. Muitas vezes não é a falta de verba que incentiva esse trabalho de luto, mas ao contrário, investe-se e incentiva-se cada vez mais esse tipo de trabalho. Antes de decidir aumentar as verbas para Educação não seria preciso decidir mudar de pensamento acerca do que estamos fazendo em educação atualmente? Ao passo que os investimentos em pesquisa crescem no Brasil, em que inúmeros programas de pós-graduação se consolidam, temos apenas 62% de universitários brasileiros plenamente alfabetizados. Além da necessária melhoraria do ensino básico, é preciso que os professores universitários se dediquem mais ao trabalho em sala de aula, se dediquem e lutem por melhoria nos cursos de licenciatura para que os futuros professores da educação básica não reproduzam essa miséria intelectual nas salas de aula.
Alguns não se dedicam nem a uma nem a outra coisa, não querem nem fazer o pé-de-meia da pesquisa, nem dedicar-se seriamente ao trabalho em sala de aula, mas apenas participar do show business acadêmico. Querem brilhar, e por isso estão mais para showman do que para professores e/ou pesquisadores. No entanto, como são bons atores, interpretam o papel de professor com uma paradoxal mestria. Lembro que no curso de Filosofia sempre houveram pessoas que estavam ali como uma “segunda opção”. Haviam aqueles que queriam estar na Medicina, na Psicologia, no Direito etc. Incluiria entre eles aqueles que gostariam de estar cursando e ter êxito em algum curso de “ciências exatas” e aqueles que, a meu ver, gostariam de ter seguido uma carreira mais próxima daquela das Artes Cênicas. O aspirante a “jovem cientista” e o velho ator taxonômico.
No entanto, é curioso verificar que são justamente essas duas figuras que determinam, atualmente, o que é ou não é Filosofia... com taxonomias, vestibulares e et cetera. Nesse caso, do ator taxonomista, creio que uma boa área de conhecimento seria a Biologia. O filósofo-ator-taxônomo é aquele que ao invés de pensar a Biologia filosoficamente, pensa a Filosofia “biologicamente”, aplicando métodos originários da Biologia para a classificação dos diversos graus de dificuldade filosófica de uma determinada questão ou enunciado. Para que pensar a filosofia filosoficamente se temos a Biologia? Dir-se-á que não se trata de uma taxonomia das ciências exatas, mas aquela das ciências sociais e “blá, blá, blá”. Enfim. De todo modo, um método científico para determinar a relevância filosófica de um enunciado. Para que filósofos? Não poderíamos criar máquinas capazes de classificar e estabelecer os diferentes graus filosóficos de  determinados enunciados ou questões? No Brasil já conseguimos, a nosso modo, dar um passo nesse sentido: sabemos se um estudante do ensino médio “filosofou” depois de uma leitora automática verificar se o mesmo respondeu corretamente as questões em um cartão resposta. Sabemos se um curso de filosofia está apto a formar o filósofo profissional quando seus acadêmicos respondem adequadamente a prova do ENADE. É o círculo da miséria intelectual institucionalizada e financiada com o dinheiro que é arrancado (imposto) daqueles que deverão, por obrigação cívica ou legal, fazer a roda desse sinistro engenho girar.
            Por isso, como diria Nelson Rodrigues, “Deus me livre de ser inteligente”. Ou ainda, parafraseando Estamira, Deus me livre de ser um inteligente ao contrário. Se defender e sustentar todo esse sistema é pré-requisito para ser reconhecido como alguém inteligente que pensa e filosofa, prefiro a burrice, que conforme Nelson Rodrigues tem ao seu favor a eternidade. Mas se não estou completamente equivocado, a eternidade da burrice justificaria o meu pessimismo em relação a possibilidade de encontrarmos uma “solução” mais inteligente para os problemas da educação, pois a própria ideia de solução que nos é apresentada já é coisa de espertos ao contrário. Aquela solução que carrega consigo um problema bem maior. O velho truque do “presente de grego”.
            Este blog é desprovido de pretensões que não sejam as de gritar, mas também de cantar, certas coisas. Portanto, com ele buscarei abordar algumas questões que foram apenas esboçadas ou insinuadas neste post, relativas às minhas áreas de interesse, isto é, Filosofia, Política, Educação e... Lazer.

Obs: a frase da pichação é do filme “Uma mente brilhante”.

Fontes:

Fotografia da pichação

Pesquisa sobre alfabetismo funcional na última década

Um comentário:

  1. Muito bom o texto, mas penso que cabe a quem pensa como você modificar isto. E penso que qualquer modificação só pode vir de dentro: de dentro de nós, de dentro da filosofia (assim, com f minúsculo mesmo), e de dentro da academia. Tentemos?
    Lembrando que quem vos fala é alguém (como você bem sabe) que tenta modificar a filosofia de dentro de uma de suas áreas mais tradicionais hoje. Tentando trazer para o debate questões políticas, sociais e morais em um campo profundamente biologicista, como citaste.
    Abraços saudosos de nossos diálogos e de tua revolta salutar.
    Pati.

    ResponderExcluir